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Por Rodrigo Lobato
- novembro 5, 2026
Modelos de atribuição
O last-click morreu, mas tem vida eterna
Dar todo o crédito da venda ao último clique é simples, rápido e quase sempre injusto. Trocar essa regra por um modelo não transparente também não resolve. Entenda o porquê.
Num jogo de futebol, o goleiro defende, o volante rouba a bola e o atacante faz o gol.
Todos recebem salário.
Agora imagine um time em que só quem faz o gol é remunerado.
Você acha que isso funcionaria?
Na publicidade digital, essa lógica tem nome: modelo de último clique (no popular, last-click).
Toda venda tem uma história antes do clique
Antes de comprar, uma pessoa costuma ter vários contatos com a marca.
Ela assiste a um vídeo da marca num portal de notícias.
Dias depois, vê um anúncio na sua rede social.
Em seguida, lê uma matéria sobre o produto.
Por fim, busca o nome da marca, clica no anúncio e compra o produto.
O modelo de atribuição é a regra que decide quem leva o crédito por essa venda.
É ele que diz ao anunciante qual investimento "funcionou".

No last-click, só o último contato recebe o crédito
A regra do last-click é a mais simples de todas: 100% do crédito vai para o último clique antes da compra.
No exemplo acima, o anúncio patrocinado do sistema de busca leva tudo.
O vídeo no portal, o anúncio na rede social e a matéria sobre o produto ficam com zero, como se nunca tivessem existido.
Isso sem falar dos anúncios que a pessoa viu, mas com os quais não interagiu, sem nenhum clique.
Mas esse é um papo mais complexo, para outra hora.
Dá para piorar? Sim
O last-click também tem as suas variações.
Dependendo de como é configurado, o canal pago que gerou o último clique pode perder a venda para um canal não pago, como a busca orgânica.
Em outros casos, se a pessoa digitar o endereço do site direto no navegador, como www.lojavirtual.com.br, a venda é atribuída ao acesso "direto", e não ao canal que gerou o clique antes.
Essa versão se aproxima de outro modelo, a atribuição na mesma sessão (in-session).
Nele, o crédito só vale para a visita que começou logo depois do clique.
Passado esse tempo, normalmente 30 minutos sem atividade, a atribuição se perde.
Há anos, o last-click é dado como morto
Há muito tempo, profissionais de marketing e de medição repetem que o last-click é simples demais para explicar como as pessoas compram.
Ele ignora tudo o que aconteceu antes do último clique.
E, mesmo assim, segue entre os modelos mais usados do mercado.
Por que o last-click ainda vive?
O last-click responde rápido à pergunta que todo gestor ouve: "o que trouxe venda?".
Além de ser fácil de entender, é gratuito: basta instalar uma ferramenta de análise de sites, como o Google Analytics, para ver de onde veio o último clique antes da compra.
Do ponto de vista técnico e de engenharia, o last-click também é o modelo mais fácil de implementar: é só guardar o último clique. Modelos que consideram a jornada inteira precisam registrar e cruzar todos os contatos de cada pessoa, em diferentes canais e aparelhos, o que exige mais estrutura e mais trabalho.
Em 2023, o Google removeu do Google Analytics quatro modelos que dividiam o crédito entre os contatos, como o linear, que dá peso igual a todos.
Sobraram duas opções: o modelo data-driven, baseado em dados, que virou o padrão, e o velho (e eterno) last-click.
Quem clica por último muitas vezes já ia comprar
Pense em quem pesquisa o nome exato da sua marca num buscador.
Essa pessoa já conhecia você.
Alguém, ou alguma coisa, fez esse trabalho antes.
O last-click premia quem estava na porta da loja e ignora quem trouxe o cliente até a rua.
Com o tempo, a marca corta o investimento que constrói lembrança e fica só com o que gera venda imediata.
Até o dia em que ninguém mais procura por ela.
Trocar o last-click por um modelo não transparente não resolve
Existem modelos que usam inteligência artificial para distribuir o crédito entre os contatos.
Em muitos casos, é um avanço.
Mas exige dois cuidados.
O primeiro: é um modelo não transparente. O anunciante vê o resultado, mas não vê a regra.
O segundo: muitas vezes, quem calcula o resultado é a mesma plataforma que recebe o investimento.
Trocar uma regra simplista por uma regra que ninguém explica apenas muda o problema de lugar.
Como chegar mais perto da verdade
Não existe modelo perfeito.
Mas existem formas de entender melhor o que realmente funciona:
- Modelos com regras claras. O modelo linear, também conhecido como flat-share, divide o crédito igualmente entre todos os contatos. Dependendo do modelo de negócio ou do momento da marca, ele pode ser ajustado para um modelo mais completo, como o U-shape: 40% do crédito para o primeiro contato, 40% para o último e 20% divididos entre os do meio.
- Testes de incrementalidade. Dois grupos parecidos são separados: um vê o anúncio, o outro não. A diferença de vendas entre eles mostra o efeito real da campanha, como num teste de remédio com placebo.
- Marketing Mix Modeling (MMM). Um modelo estatístico que cruza vendas e investimentos ao longo do tempo, inclusive em canais fora do digital, para estimar o peso de cada um.
- Pesquisa de marca (brand lift). Perguntar às pessoas se elas lembram da marca e se considerariam comprar. Lembrança de marca também é resultado. O ideal é usar plataformas independentes para mensurar o brand lift, para não repetir o problema de a mesma empresa que vende a mídia auditar os próprios resultados.
- Olhar o negócio como um todo. Comparar o resultado real da empresa, e não só o relatório de cada plataforma.
Ter curiosidade e usar a régua certa
Para fazer uma marca crescer, é preciso ter curiosidade de entender o que de fato muda o comportamento das pessoas, e não só quem estava mais perto da compra.
O last-click é gratuito, mas questionar e entender a fundo também é.
Dá trabalho? Com certeza!
Mas é nesse trabalho que a marca deixa de olhar só para o último passo e passa a enxergar o caminho inteiro.
E aprende a medir o próprio crescimento com a régua certa.
Contra números, há argumentos.
Sobre a Escola de Mídia
A Escola de Mídia é uma associação sem fins lucrativos dedicada à transparência, à ética e à educação técnica no mercado publicitário digital.
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